Quem salva o herói? #3
Eu sou um otário, quer dizer, algumas vezes eu penso sou melhor do que estas pessoas, olhe para elas, nenhuma possui nada a oferecer, são estritamente chatas, preocupadas com idiotices ou com coisas que eu posso resolver em minutos. E ainda eu me pergunto o motivo de ser um fracassado, o que acontece é que eu sou como eles.
—Silêncio na sala, se continuarem assim eu vou dar como dado o assunto e coloco na prova e ninguém venha reclamar, porque se quisessem aprender garanto que estariam calados—Falou o demônio em forma de professora, será que ela não poderia inovar esse discurso chatíssimo?
Pensando bem, não sou melhor do que os meus colegas, eles são mais felizes do que eu, eu sou apenas um otário, que tem medo de aceitar isso e por isso acha-se o sujeito superior e mal compreendido.
“Meu Deus, eu não vou não passar de ano isso é difícil demais, ave meu Deus o que é isso?” Os seus pensamentos pareciam alarmantes. Não sabia muito bem como solucionar a questão, mas como Luci parecia ser umas das poucas pessoas que não foram condicionadas a serem legais comigo, ou que por motivação própria querem se aproveita, decidi ajuda-la no assunto.
—Quer uma ajudinha no assunto?—Perguntei
— claro que eu quero— “Só você mesmo para me ajudar” ela pensou.
Luci era do tipo de garota meiga que esconde os seus encantos, ela tinha um rosto bonito, um cabelo castanho que caia sobre os ombros, vestia roupas discretas, não era algo pelo qual eu me incomodava, afinal ela era apenas minha amiga, apesar de já ter lido os seus pensamentos e descoberto que ela tinha um interesse por mim, ainda acho que foi apenas algo que foi conduzido a ser pensado. Ela nunca iria reparar em alguém arrogante como eu, o curioso é que eu não me recordo muito de conduzi-la a isso.
“Por que ele está me encarando?” Seus pensamentos gritavam mais uma vez. Droga esqueci o código de ética! Não posso ler os pensamentos de algumas pessoas. Bem, já que comecei posso dar uma rodada pela mente de algumas pessoas.
“Porque aquela peste, não para de falar tanta… O que é que aquele doido quer comigo, não para de me encarar?”
Depois de ler os pensamentos de Mateus decido parar com isso, é melhor. Assim como Lucia, Mateus entra no grupo amigos e pessoas que não violados os pensamentos.
—professora, tô achando a senhora muito chata, esse assunto é difícil demais, você não pode coloca-lo na prova não, não vai dá tempo de estudar não!—Alice reclamou. talvez eu pudesse ajuda-la ensinado esse assunto, ela podia ir para casa , agente conversava e eu a convencesse que eu não sou um fracassado, mas é aí que eu lembro que eu não sei muito esse assunto e que devo esquecer dessa história.
Não aguentando mais ver aquela situação caótica dos alunos suplicando por misericórdia na hora da correção e elaboração da prova. Decido sair da sala, felizmente tenho um motivo! Tinha que pagar a mensalidade, se bem que o certo era fazer essa porcaria na hora do intervalo, mas a minha paciência acabara e também não tinha nenhuma coisa para me entreter, o assunto de química era algo do demônio.
Felizmente, o caminho até o “campo de finanças” não era algo desgastante, assim já sobrava energia para ficar em pé esperando para ser atendido caso estivesse cheio de pessoas. A sala possuía um espaço razoável, possuía em torno de umas vinte cadeiras azuis enfileiradas e separadas de modo que deixasse o meio livre. No setor três funcionários atendiam. Quando um lugar qualquer na terceira fila foi cedido, sentei-me e não demorou em que notasse algo repugnante na minha frente. Aquele heroizinho estava sendo atendido. Decidi que poderia brincar com a sua mente novamente, o xingar de otário, fracassado e outras palavras menos dignas de serem enumeradas.
“Será que isso não pode ser mais rápido? Não tenho tempo para ficar aqui, não me sinto muito confortável, estou confuso, eu não posso ter perdido meus poderes, tenho que pensar ainda sobre isso, pesquisar, mas aonde? No fundo nunca recuperarei essa porcaria de poderes. O importante é…”
Isso é impossível! É bom de mais para ser verdade, obrigado meu Deus, obrigado mesmo. Isso é perfeito. Tenho que admitir: eu acho é pouco, seria muito mais agradável se ele tivesse perdido seus poderes em suas rondas e com isso ter levado uma surra. Não, isso já é demais, não posso desejar o mal dos outros. Espere um pouco… Mal?! Mal dele, não dos outros, ninguém precisa de um herói, por todo o mundo vivemos e estamos vivos. O que não precisamos é de idiotas que pensam que são melhores do que os outros e que usam os seus dons para terem status. Tá bom, eu também faço isso às vezes, só que com a minha preciosa sutilidade. De qualquer forma, se ele é um herói deveria lutar pela justiça e não pelo seu ego. Desculpe-me os policiais, mas vocês vão ter que trabalhar de novo.
“Ninguém pode saber disso, por enquanto não… Mas quem eu vou enganar? Nunca terei a coragem de contar isso para ninguém”
Seus pensamentos me divertiam. Poderia atormentá-lo, falar mentalmente que eu sei que irei espalhar isso para todos, contudo, isso soa covarde, não quero atormentá-lo dessa forma, meu desejo é encará-lo e falar isso.
Perdido nesses pensamentos dignos de um psicopata, uma mulher passou na minha frente. Preciso ficar mais atento e planejar como irei me encontrar com o herói.
Milagrosamente chegou as 11:50, finamente poderia ir para casa e planejar como iria efetuar meu plano, com a mania de querer pensar profundamente no caminho para casa, me apressei e fui na frente, não queria que alguém me acompanhasse e começasse a falar besteira, ou se o assunto acabasse teria que forçar conversa. Embora pareça eu não sou um sujeito arrogante, sou apenas pensativo.
Vamos lá, pareço um otário andando apressadamente e sozinho, devo sossegar quando virar a esquina começo a andar devagar. Ainda não acredito que o herói perdeu os seus poderes, eu sei que não devia rir disso, estar alegre pela desgraça dos outros é um pecado, só que vendo bem isso nunca vai ser uma desgraça, isto foi a melhor coisa que aconteceu. —Devendo acabar logo com essa crise, comecei a pensar naquilo que realmente importava—Preciso primeiro intimidá-lo para depois perguntar como os seus poderes sumirão, mas se eu intimidá-lo, logicamente ele não vai responder nada, poderia apenas procurar na sua mente a resposta, mas não… Qual a graça disso? Preciso provoca-lo. E se eu disser que fui eu que destruí os seus poderes? —Olho para o céu com uma cara de demente— é muita burrice, e se ele bateu a cabeça no chão ou… Sei lá encontrou uma pedra que retirava os seus poderes— Que mente original você tem— Já está decidido; o provoco e depois me posiciono como um vilão, confesso que é um pouco forte essa palavra, enquanto leio os seus pensamentos e descubro, e na hipótese dele não saber, me posiciono como o causador e tento retirar mais informações, se ele conseguiu por que eu também não consigo?
Você não está usando a razão—alguma parte boa da minha mente tenta me ajudar.
Como não estou usando a razão? Eu não quero essa merda de poderes, não quero passar toda a minha vida pensando que as pessoas só falam comigo porque foram condicionadas, ou que certas coisas que acontecem a meu favor foram desleais, não quero saber o que as pessoas acham sobre mim nas suas mentes podres, doentias e superficiais. “Na verdade, eu tenho é medo de não me controlar ou saber realmente como as pessoas me vêm” Mais uma vez, a parte boa da minha consciência retruca. Droga não devia ter ido por essa rua.
Pingando de suor, e parecendo que andei por um deserto chego a casa, com uma sede dos infernos. Entro, jogo meus cadernos na mesa e vou para a cozinha.
—Já chegou?—Minha mãe pergunta.
“Não ainda estou lá no colégio, quero que conheça meu clone” —Já sim—Respondo enquanto o copo enche de água. “Droga de filtro”
—A sua revista já chegou, têm uma matéria sobre….
—Acho que a senhora deve cancelar a assinatura–A interrompo
—Por quê?
—A revista perdeu a credibilidade.
Quem quer saber de entrevista com o porra do Eduardo herói, cuzão que perdeu os poderes? Percebendo a minha variação de humor ela decide acabar com a conversa.
O almoço estava frio e rotineiro, a única coisa de diferente da refeição do dia anterior era o suco, desta vez era um refresco de uva, ou melhor, uma água rocha. Perdido em pensamentos começo a digerir aquela papa, ainda preciso saber como irei me encontrar com o herói. Sei que ele estuda pela tarde no colégio, só que discutir com ele no meio de todo mundo? Se pelo menos ele chegasse atrasado… Merda, se eu soubesse onde ele morava podia encontra-lo na rua. Rapidamente descarto esta hipótese. O mais correto é realmente encontrá-lo no colégio, o retardado tinha que chegar atrasado; por favor, me dia que ele chaga atrasado!—Deus têm coisas melhores a resolver— Espere, eu posso conversar com um dos colegas dele, tenho alguns deles no MSN, mas como perguntar isso de uma forma “natural”? A revista! É isso, pergunto se leram e como é que é ter um colega superpoderoso (e otário).
Tenho que confessar, sou um cara de sorte, uma das suas colegas respondeu rapidamente as minhas perguntas. Eduardo sempre chegava atrasado, só precisava esperar até amanhã e executar meu plano. Minha vida é a melhor coisa do mundo. Quem é que eu vou enganar? Já ia até esquecendo-se de falar quem sou eu. Enfim, quem eu sou? Sou apenas um otário, que pensa que sua vida é maravilhosa, eu não sou um herói, e nem aquele que pode salvar o mundo da sua imbecilidade, por quê? Simplesmente porque eu faço parte dessa imbecilidade.
P.S: Crédito do desenho: Vanessa Nascimento





